O crescimento exponencial da Wepink, marca de cosméticos da influenciadora Virginia Fonseca e da empresária Samara Pink, tornou-se um dos fenômenos mais comentados do mercado brasileiro. No entanto, o que parecia ser apenas uma máquina de vendas revelou camadas complexas de riscos estruturais que servem como um alerta para gestores da área.
Recentemente, a Agência Pública publicou uma investigação jornalística que expôs a cadeia societária e parceiros comerciais da marca, trazendo à tona questões críticas de Due Diligence e Know Your Partner (KYP).
O caso evidencia dois grande pontos: O perigo para a própria Wepink e o perigo para parceiros que ao fazer negócios sem consultar essas informações, podem acabar sendo associados a mídias negativas e ter sua imagem reputacional manchada por pela parceria.
Linha do tempo e histórico
Tudo começou formalmente em 2017 quando Samara Cahanovich Martins abriu a primeira unidade de um salão de beleza registrado sob o nome Samy Karen Lash Studio De Beleza Ltda, que ficaria conhecido como Pink Lash. A empresa cresceu de forma acelerada, com dezenas de unidades abertas na Grande São Paulo em poucos anos.
Até ai parecia apenas uma história de sucesso no empreendedorismo, o problema estava em quem integrava a estrutura societária desde o início.
Durante investigações, a Agência Pública descobriu uma segunda sócia da empresa. Karen de Moura Tanaka Mori, participou formalmente de pelo menos quatro empresas ligadas ao negócio. Diferente da sócia Samara, Karen não aparecia nas redes sociais, no marketing da marca, nem como porta-voz do negócio. Era uma sócia com papel indefinido publicamente.
E sócios sem papel claro deixam o questionamento: qual função que essa pessoa exerce nessa sociedade?
Olhando para o histórico vemos que Karen é viúva de Wagner Ferreira da Silva, apontado pela Polícia Civil de São Paulo como um dos principais representantes do PCC na Baixada Santista. Wagner foi executado em 2018, período que coincide com um boom de abertura de novas unidades da Pink Lash.
Nesse mesmo ano, Karen passou a ser investigada por movimentação financeira incompatível com sua situação patrimonial anterior. Em fevereiro de 2024, foi presa em flagrante e hoje responde em prisão domiciliar por lavagem de capitais, associação criminosa e organização criminosa.
E qual a ligação com a empresa de cosméticos bilionária Wepink? É simples, Samara, Thiago e Karen foram sócios na Pink Lash. E na cadeia societária da Wepink, foi encontrado entre os sócios a influencer Virginia Fonseca e o marido de Samara, o empresário Thiago Stabile.
Embora a Wepink em si seja uma entidade separada, o “contágio reputacional” é imediato.
Para um CEO, isso reforça que a análise de antecedentes não deve se limitar apenas ao sócio direto, mas deve retroceder na linha do tempo das participações societárias para identificar beneficiários finais ocultos.
A Importância da Due Diligence na Estrutura Societária
Embora a Wepink em si seja uma entidade separada, o “contágio reputacional” é imediato. Para um CEO, isso reforça que a análise de antecedentes não deve se limitar apenas ao sócio direto, mas deve retroceder na linha do tempo das participações societárias para identificar beneficiários finais ocultos.
Riscos identificados e lições de Governança
Abaixo, detalhamos como as falhas de compliance podem afetar a operação e a imagem de uma companhia em escala:
Pilar de Risco | Problema Identificado no Caso | Impacto para o Negócio |
Reputacional | Conexão indireta com investigados por lavagem de dinheiro. | Desvalorização da marca e perda de confiança de investidores. |
Operacional | Venda de produtos sem estoque físico (venda antecipada agressiva). | Multas de milhões e bloqueio de lives de vendas pela justiça. |
Consumerista | Milhares de reclamações por falta de entrega e suporte deficiente. | Termos de Ajustamento de Conduta (TAC) e intervenção do Procon. |
Governança | Falta de transparência na origem de insumos e na logística. | Intervenção de órgãos reguladores e desgaste jurídico prolongado. |
O que a legislação brasileira determina
Ignorar quem está do outro lado de uma relação societária ou comercial não é apenas uma decisão estratégica ruim. É, em muitos casos, uma omissão com consequências legais diretas.
A Lei de Lavagem de Dinheiro (Lei 9.613/1998, atualizada pela Lei 12.683/2012) estabelece responsabilidades não apenas para quem pratica o crime, mas para quem tinha a obrigação de impedir e não o fez. A defesa de “não sabia quem era meu sócio” é juridicamente frágil e dificilmente sustentável quando existem obrigações regulatórias de monitoramento.
Empresas que atuavam em parceria com a Pink Lash ou com a Wepink e que tinham obrigação de monitorar o quadro societário, comunicar operações financeiras suspeitas às autoridades competentes e não o fizeram, podem ser alcançadas pelos reflexos da investigação.
Por que o KYP ainda é ignorado
A maior parte das empresas já sabe da necessidade do KYC para mapear o risco de clientes. Quando não por obrigação regulatória, pelo simples interesse em evitar inadimplência e fraudes.
Mas poucas empresas estendem esse mesmo rigor para seus parceiros, sócios e fornecedores estratégicos.
E por quê isso acontece?
Porque relações comerciais e societárias costumam começar de forma informal. Você desenvolve um relacionamento com a pessoa antes de formalizar o negócio. Quando chega o momento de assinar, a tendência é agir a partir de um pressuposto de confiança, como se o tempo de convivência já equivalesse a uma verificação.
É aí que mora o risco. A familiaridade não substitui o processo. E o processo, quando ausente, deixa a empresa exposta a riscos que poderiam ter sido detectados antes.
Gravei uma análise completa sobre esse caso
No vídeo, eu conduzo um passo a passo que explica mais detalhadamente toda linha de tempo e envolvimento do caso e passo pelos temas:
Linha do tempo completa do caso;
Por que o mercado ignora o KYP;
Os 4 sinais públicos analisados ao vivo;
O impacto jurídico real;
Processo manual versus tecnologia;
Se você chegou até aqui, já sabe que o problema existe.
O vídeo mostra, com dados reais e fontes abertas, exatamente como ele se instala, e o que separa uma empresa que teria identificado o risco de uma que não teria.
Confira o conteúdo na íntegra no Youtube:
Due diligence não começa depois do problema, começa antes da assinatura.
A VAAS te ajuda a descobrir o que você ainda não sabe sobre quem está do outro lado das suas relações comerciais.
FAQ - Dúvidas sobre o caso e seus riscos
A obrigação de fazer due diligence de parceiros se aplica a qualquer tipo de empresa ou apenas às que atuam em setores regulados?
A obrigação formal de monitorar o quadro societário e comunicar operações suspeitas é mais explícita para empresas em setores regulados, como o financeiro e o de capitais. No entanto, a Lei de Lavagem de Dinheiro e a Lei Anticorrupção estabelecem responsabilidades que alcançam qualquer empresa que tenha participado, ainda que indiretamente, de uma estrutura com irregularidades. Do ponto de vista do risco reputacional e legal, nenhuma empresa está isenta da necessidade de conhecer quem está do outro lado das suas relações comerciais e societárias.
Como a cadeia societária pode afetar a empresa se os crimes foram cometidos por terceiros?
Se uma empresa se associa a indivíduos com histórico de lavagem de dinheiro sem as devidas cautelas, ela pode ser arrastada para investigações ou ter seus ativos bloqueados.
Como a VAAS apoia empresas no processo de Know Your Partner?
A VAAS oferece uma análise societária integrada que mapeia automaticamente os beneficiários finais de uma estrutura, identifica CNPJs vinculados a cada sócio, cruza endereços, verifica processos judiciais, consulta listas de PEPs e restrições, e realiza pesquisa de mídia adversa. Tudo em uma fração do tempo que um processo manual levaria. Além disso, o monitoramento contínuo permite que a empresa receba alertas sobre movimentações societárias ou novos riscos sem precisar realizar consultas recorrentes.
Quanto tempo depois da entrada de um sócio ainda faz sentido realizar a due diligence?
O ideal é que a due diligence anteceda qualquer formalização. Mas o monitoramento não termina com a assinatura do contrato. Estruturas societárias mudam, perfis de risco evoluem e novas informações surgem ao longo do tempo. No caso da Wepink, parte relevante das movimentações suspeitas ocorreu após a entrada inicial na estrutura. O processo de KYP efetivo é contínuo: verifica antes, monitora durante e alerta sempre que algo relevante muda.